ANIMAL FARM
PERFIL DA OBRA
| Animal Farm A Revolução dos Bichos | |
|---|---|
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| OFERTAS COGNITIVAS | |
| Conhecimento | Como funciona o processo de transformação de um regime democrático em outro, totalitário. |
| Aperfeiçoamento | Estudo do uso do idioma tanto para proteção, quanto para subversão de um regime democrático. |
| Reflexão | Nosso papel nas relações políticas, tanto públicas quanto particulares. |
| NARRATIVA | |
| Autor | George Orwell |
| Tipo | Fantasia política |
| Temas | Revolução, socialismo, totalitarismo, revolução |
| Público | Jovem, adulto |
| Idioma | Inglês |
| Período | Primeira metade do século XX |
| Cenário | Uma pequena fazenda inglesa |
| COMPOSIÇÃO | |
| Época | Entre 1940 e 1944 |
| Local | Londres, Inglaterra |
| EDIÇÃO WERNECK EDITORIAL | |
| Público | Assinantes |
| Conteúdo | Texto integral da edição original de 1945 |
| Versão em português brasileiro atual | |
| Análise contextual e perfil do autor consolidados na Retroestória | |
Longe de ser uma fábula infantil, Animal Farm (A Revolução dos Bichos, A Quinta Animal, ou ainda A Fazenda Animal) é, na verdade, uma poderosa fantasia política, uma crítica direta ao totalitarismo soviético.
Seu autor, George Orwell, era um socialista inglês que, portanto, bem poderia nutrir simpatias pelo stalinismo. Mas era também um democrata com horror a ditaduras, fossem elas de direita ou de esquerda.
Ler Animal Farm, bem como a análise contextual e o perfil do autor preparado especialmente para esta edição Werneck Editorial não apenas nos traz um melhor entendimento do mundo político ao nosso redor, mas também nos prepara para melhor enfrentar os pequenos ditadores que nos cercam em nossa vida pessoal ou profissional.
Oferta de conhecimento
O grande conhecimento que Animal Farm nos oferece é a compreensão e identificação do processo clássico de destruição de uma democracia, processo este que ocorreu na Rússia após a revolução democrática de fevereiro de 1905.
A narrativa começa com a promessa revolucionária de uma vida melhor para os animais de Manor Farm, que acabam expulsando os humanos e assumindo o controle da quinta. No início, reina a igualdade e a democracia. Mas, pouco tempo depois, os porcos começam seu caminho para o controle total: tomam conta da burocracia e das “relações exteriores” da quinta, criam uma polícia política, instalam um sistema de propaganda e desinformação, e “elegem” inimigos do povo que são sumariamente perseguidos e aniquilados sem qualquer compromisso com a verdade dos fatos.
A obra expõe as ferramentas comuns da ditadura: propaganda, medo e violência, e a manipulação da história e da linguagem. A eliminação gradual dos Sete Mandamentos do Animalismo e a conversão do principal de "Todos os animais são iguais" em "Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros," tornou-se o grande exemplo de distorção linguística usada para justificar a opressão.
Oferta de aperfeiçoamento
Além do mérito do tema e da integridade intelectual de seu tratamento, Animal Farm é um exemplo do inglês claro e preciso de George Orwell, que escreve com palavras simples e gramática elegante, deixando o leitor livre para concentrar-se na trama sem ter sua atenção desviada por uma linguagem rebuscada e pedante.
Como abordado em seu ensaio Politics and the English Language, Orwell considerava não apenas a narrativa, mas também a escolha da linguagem nela empregada como uma ferramenta política capaz de “dar ares de verdade às mentiras e de nobreza a um homicídio”.
Para quem ensina a bela língua inglesa e quem precisa ou acredita que virá a precisar escrever apresentações, propostas e, principalmente, teses ou monografias em inglês, ler a prosa cristalina de George Orwell é uma excelente oportunidade de aprendizado.
Oferta de Reflexão
Animal Farm é, em sua totalidade, uma obra para reflexão. E não apenas política, mas também no âmbito da nossa vida pessoal e profissional.
Será que em nosso meio há um “ditador” que devagar se impõe sobre os demais para concretizar seu plano de poder?
Será que, mesmo sem perceber, somos nós mesmos esse ditador?
Resumo
Guiados pela doutrina do Animalismo, um princípio existencial concebido por Old Major, um velho porco de exposição, os animais de Manor Farm fazem uma revolução, expulsam os humanos e assumem o controle da propriedade. De início, estabelecem um regime de igualdade regido pelos Sete Mandamentos do Animalismo, o mais importante dos quais afirmando que “todos os animais são iguais”.
Logo nas primeiras semanas, porém, os porcos começam a controlar os demais. Aprendem a ler e a escrever, estudam mecânica e eletricidade, planejam melhorias, e organizam e comandam a defesa nas ocasiões em que os humanos tentam retomar Manor Farm — que agora chama-se, claro, Animal Farm.
As duas principais lideranças são Snowball e Napoleon, que logo tornam-se inimigos. Protegido pelos cães que criara em segredo (sua polícia política), Napoleon culpa Snowball por todos os problemas da quinta, forçando-o a fugir e gradualmente eliminando todos os seus supostos partidários. Deste momento em diante, Animal Farm não é mais uma comunidade igualitária, mas uma propriedade rural governada por uma “elite” autocrática onde reinam o medo e a apatia política.
Depois de anos de ditadura dos porcos, e com a maioria dos animais que dela haviam participado já mortos, quase mais ninguém se lembrava da Revolução, e os Sete Mandamentos do Animalismo haviam sido reduzidos a apenas um: “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros“.
O conto de fadas termina com os porcos recebendo os demais proprietários rurais da região para um jantar na “casa grande”. Os outros animais, observando a cena da janela, não entendiam o que estava acontecendo, pois os porcos estavam tão diferentes que não era mais possível dizer quem era porco e quem era humano.
O original, manor house refere-se à casa dos proprietários de uma quinta na Inglaterra. Traduzimos por “casa grande”, o termo de Gilberto Freyre para as sedes das fazendas brasileiras, com a ressalva de que são instituições bastante distintas: a primeira é uma expressão do conforto da classe média rural inglesa, enquanto que a segunda é uma representação do poder da aristocracia agrária brasileira pré-industrialização.
Contexto
Animal Farm é uma denúncia do regime ultratotalitário com o qual Stalin governou a União Soviética entre as décadas de 1920 e 1950, e de seus esforços para “exportar” a revolução comunista para outras partes do mundo.
Após a eclosão da sangrenta guerra civil em 1936, George Orwell, que então já era um escritor socialista razoavelmente conhecido, decidiu viajar para a Espanha e juntar-se aos voluntários estrangeiros que lutavam ao lado do governo republicano contra os rebeldes nacionalistas. Instalado na região da Catalunha, Orwell e sua mulher Eileen, que tinha viajado ao seu encontro poucos meses depois, foram perseguidos e condenados à morte pelos comunistas espanhóis, que seguiam a orientação stalinista.
Essa perseguição era consequência da luta de poder entre Stalin e seu arqui-inimigo Trotsky. Iludido com a ideia de uma frente antifascista unificada e sem compreender os conflitos internos da Esquerda espanhola, Orwell ligou-se ao PUOM, um partido de orientação trotskista, tornando-os, ele e Eileen, alvos da ira dos stalinistas do Partido Comunista Espanhol.
O casal conseguiu, no entanto, cruzar a fronteira entre Espanha e França, e de lá seguiram para a Inglaterra. Orwell, porém, começou a sofrer perseguições dos sindicatos comunistas e da parte da imprensa de esquerda britânica que estava alinhada com Moscou, sentindo na própria pele o peso da perseguição soviética.
Assim, podemos imaginar a indignação que Orwell experimentou quando, depois que Hitler invadiu a União Soviética em 1941, o Império Britânico passou de opositor a aliado da ditadura stalinista. De sua perspectiva, subitamente, em nome dessa aliança, os crimes de Stalin foram, da noite para o dia, esquecidos pelo público britânico. Foi, portanto, como um misto de vingança, desabafo e alerta que ele teve a inspiração para uma fábula moderna sobre animais que libertam a fazenda do controle de seu dono malvado, mas acabam subjugados por um grupo ainda mais tirano e cruel.
Sobre o autor
Além da base histórica, para melhor compreendermos Animal Farm é preciso conhecer a figura complexa e muitas vezes contraditória de George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair: um socialista conservador de classe média que procurava ser acolhido pela classe operária ao mesmo tempo em que cultivava as tradições do império britânico; e que compôs duas das críticas mais eloquentes contra regimes totalitários jamais escritas, mas sugeriu a formação de um exército popular para eliminar a aristocracia de seu país.
A primeira, claro, é Animal Farm. A segunda é seu livro final, 1984.
Eric Blair nasceu em 1903, na cidade de Motihari, presidência de Bengala, uma das regiões mais importantes da Índia Britânica, onde seu pai, Richard Blair, era um funcionário subalterno do governo colonial. Aos dois anos de idade, porém, Eric e sua irmã mais velha, Marjorie Frances, foram com a mãe, Ida Mabel, para a Inglaterra, estabelecendo-se em Henley-on-Thames, perto de Oxford, a cerca de sessenta quilômetros de Londres.
A família de Ida Mabel tinha uma certa influência e, através de um tio, Eric conseguiu uma bolsa de estudos para St. Cyprian’s, uma das melhores escolas preparatórias da época e, em seguida, para a célebre Eton. Nesta segunda, Eric foi contemporâneo, dentre outros, do príncipe Henrique, duque de Gloucester, filho do rei Jorge V e terceiro na linha de sucessão do trono britânico. A imensa diferença socioeconômica entre Eric, filho dum modesto funcionário público de quarto escalão, e a maioria de seus colegas, possivelmente é a na origem de seu evidente ressentimento contra a aristocracia e alta burguesia inglesa.
Não tendo obtido notas suficientes para conseguir uma bolsa de estudos universitária, Eric ingressou na Polícia Imperial, servindo durante cinco anos na Birmânia. Lá foi responsável pela segurança de duzentas mil pessoas, muitos deles funcionários do império, pessoas que ele descreveu como “... insípidas porém honestas, que cultivavam e fortificavam sua insipidez por trás de duzentas e cinquenta mil baionetas.”
Após demitir-se do serviço colonial e fixar residência novamente na Inglaterra, Eric Blair tentou uma carreira como professor, a qual abandonou após contrair uma violenta pneumonia. Foi então para Londres, trabalhando como vendedor em meio-expediente num sebo de propriedade de amigos de sua tia, Kate, que era uma socialista convicta.
É neste período que sua carreira como escritor começa a tomar forma, e Blair percorre os cantos mais miseráveis de Londres e de Paris colhendo o material que será a base de seu primeiro livro, Down and Out in Paris and London (Na Miséria em Paris e Londres), publicado em 1933. E é justamente por estar preocupado com a possível repercussão da obra sobre a reputação de sua família que Eric e seu editor acabaram optando pelo pseudônimo hoje universalmente conhecido de George Orwell.
Em 1936, Blair casou-se com Eileen O'Shaughnessy, uma ex-aluna de Oxford e estudante de psicologia infantil que ele conhecera numa reunião intelectual em Londres. Como já visto acima, cinco semanas após o casamento, explodiu a Guerra Civil Espanhola, que, para os Blair, resultou na perseguição política que deu origem às duas obras pelas quais George Orwell é mais conhecido: Animal Farm (A Revolução dos Bichos) e Nineteen Eighty-Four (1984).
Animal Farm foi publicado no Reino Unido em 1944, com sucesso imediato de público e crítica, dando a Orwell enorme popularidade. Tragicamente, em 1945, Eileen faleceu durante uma cirurgia. Pouco depois, com sua saúde sempre precária, Blair retirou-se para a iha de Jura, na costa ocidental da Escócia, para escrever Nineteen Eighty-Four. Porém, uma queda nas águas geladas do entorno da ilha acabou forçando seu retorno à Inglaterra para internação.
Nineteen Eighty-Four, ou 1984, chegou às livrarias em junho de 1949. Em outubro, Blair casou-se novamente, desta vez com Sonia Brownell, que conhecera anos antes quando colaborava com a revista literária Horizon. Porém, seu casamento durou apenas três meses, pois Eric Arthur Blair, mais conhecido como George Orwell, faleceria em 21 de janeiro de 1950, de complicações pulmonares que, possivelmente, vinham se acumulando desde aquela pneumonia que, em última análise, acabou levando-o a tentar a sorte como escritor profissional.

